Os Líderes de Lagarto: Artur Reis e Ribeirinho


A história política de Lagarto, no interior de Sergipe, não pode ser contada sem citar os nomes de Artur de Oliveira Reis e Rosendo Ribeiro Filho, o Ribeirinho. Durante décadas, esses dois homens protagonizaram uma das rivalidades mais marcantes do estado, dividindo a cidade em dois blocos apaixonados: Saramandaia e Bole-Bole. Mais do que políticos, eles se tornaram símbolos de estilos diferentes de liderança e de formas distintas de compreender o poder.



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 Artur Reis: o estrategista do Saramandaia


Nascido em 1938, Artur de Oliveira Reis cresceu em meio à tradição política da família Reis. Eleito deputado estadual no final da década de 1970, consolidou-se como uma das vozes mais influentes da Assembleia Legislativa de Sergipe.


O auge de sua trajetória ocorreu em 1982, quando foi eleito prefeito de Lagarto. Seu governo, que se estendeu até 1988, foi marcado pela busca de modernização administrativa e pela consolidação de uma máquina política sólida. Inspirado na novela de Dias Gomes, Artur batizou seu grupo político de Saramandaia, expressão que se tornou sinônimo de força, disciplina e centralização.


De perfil austero e articulador, Artur tinha a imagem de estrategista, um líder que pensava Lagarto de cima para baixo, como quem organiza um tabuleiro de xadrez. Para uns, era sinônimo de ordem e progresso; para outros, de rigidez e controle.



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 Ribeirinho: o carismático líder do Bole-Bole


Sete anos mais velho que Artur, Ribeirinho nasceu em 1928 e iniciou sua carreira política cedo, elegendo-se vereador em 1958 e prefeito de Lagarto em 1963. Depois, construiu uma trajetória duradoura na Assembleia Legislativa, onde exerceu cinco mandatos de deputado estadual.


Cassado pela ditadura militar em 1969, voltou à política com ainda mais prestígio popular. Foi nesse período que seu grupo recebeu o apelido de Bole-Bole, termo originalmente pejorativo, mas que Ribeirinho e seus seguidores transformaram em bandeira de identidade.


Ao contrário do estilo calculista de Artur, Ribeirinho era um líder de proximidade. Gostava de estar nas feiras, de falar a linguagem simples do povo e de oferecer soluções imediatas, ainda que baseadas no clientelismo característico da época. Sua principal arma era a rádio Eldorado FM, que levava sua voz a cada canto de Lagarto.



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A Rivalidade


Nos anos 1980, a disputa entre os dois alcançou seu auge. Enquanto Artur Reis administrava a cidade como prefeito, Ribeirinho ocupava espaço na Assembleia Legislativa, mantendo-se como contraponto permanente.


As eleições em Lagarto se tornaram verdadeiros espetáculos de paixão popular. Havia famílias divididas, amizades rompidas e até casamentos estremecidos por causa da política. De um lado, os que se identificavam com a disciplina de Saramandaia; do outro, os que se reconheciam no carisma de Bole-Bole.


Essa divisão foi tão forte que transcendeu a política e se tornou parte da cultura lagartense. Ainda hoje, muitas pessoas mais velhas se definem como “saramandaias” ou “bole-boles”, como se fosse uma segunda identidade.



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 Legados


Artur Reis deixou a marca de gestor e estrategista, projetando Lagarto no cenário estadual e consolidando a tradição política dos Reis.


Ribeirinho carregou o peso da memória popular e do afeto do povo. Seu carisma e sua resistência o transformaram em mito, símbolo de uma forma de fazer política mais próxima e direta.



 Conclusão


Não há como dizer quem foi mais importante para Lagarto. Artur Reis representou a ordem institucional e a modernização administrativa. Ribeirinho simbolizou o carisma, a resistência e a identidade popular.


Juntos, criaram uma narrativa de rivalidade e equilíbrio de forças que marcou a cidade e moldou gerações. Lagarto viveu entre o gavião e o bole-bole, entre a estratégia e o carisma — e talvez seja por isso que sua história política seja tão rica e fascinante.



Itamar Santana – Advogado e ex-vereador de Lagarto

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